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Coluna Coração & Mente - Revista Up! Womem*

*publicação trimestral da Editora Mahiri

A magia da beleza

por Eduardo Almeida

 

    As grandes tradições sempre tiveram uma grande vinculação com a beleza. Para todas essas tradições contemplar a beleza aumenta nossa vibração e nos disponibiliza para o simples. Há alguns anos li um artigo do físico Marcelo Gleiser falando sobre a harmonia e a beleza. A natureza segue leis simples que se manifestam com uma suave elegância em cada elemento da criação.  A geometria sagrada que estuda a relação entre as proporções e as formas  nos mostra como o micro e o macrocosmo se organizaram e de como tudo na natureza  é regido por essas leis. A Sequência de Fibonacci, matemático italiano do século XII, consiste em uma sucessão de números, tais que, definindo os dois primeiros números da sequência como 0 e 1, os números seguintes serão obtidos por meio da soma dos seus dois antecessores. Portanto, os números são: 0,1,1,2,3,5,8,13,21,34,55,89,144,233,... Dessa sequência, extrai-se o número conhecido como número de ouro. Quando dividimos um número pelo seu antecessor, a série converge para a seção áurea. Por exemplo, 34/21 = 1,6190..., e 144/89 = 1,61798...  Observando como a natureza se organizou de forma matemática, todos os grandes artistas renascentistas utilizaram esse número de ouro em suas criações. A formação dos cristais, a organização das galáxias, a espiral do caracol náutilus,  a curvatura do seu lábio tudo se organiza a partir da espiral áurea construída pelo número de ouro. Há uma beleza implícita na forma como natureza usou a matemática, a uma grande mágica na forma como nossa energia reage a beleza.

    Os nativos americanos tinham na ligação com a contemplação do belo uma grande fonte de energia. Hoje se sabe que nosso corpo reage de forma diferente quando estimulado por  uma imagem de negatividade. Cientistas japoneses estudam como os cristais de água congelada se organização de forma bela quando são estimulados por palavras agradáveis, meditação ou oração. Ao abrir os olhos para essa percepção de que tudo está relacionado como uma grande rede, nos abrimos para uma conexão pessoal com o divino. Essa transformação nos enche de energia e amor ilimitados o que aumenta nossa capacidade de enxergar ainda mais beleza no mundo. E de onde parte essa olhar que acessa o belo? O Olho da carne só enxerga o que é visível, o condicionado, o que muitas vezes é imposto pelo sistema. O Olho da mente só enxerga aquilo que pode ser pesado e medido. Com o olho do espírito vemos além. Para Exupery: “somente com o coração é que vemos com clareza, o essencial é invisível aos olhos”. Abrir os olhos para o belo é abrir o olhar do coração.

Para celebrar o início dessa caminhada de beleza deixo uma oração dos nativos americanos

Hoje saio à caminhar

Todo o mal me abandona

Serei tal como fui antes

Terei o corpo leve e uma brisa fresca

a percorrer-me o corpo

Hei de ser feliz para sempre

Nada há de me impedir

Eu caminho com a Beleza à minha frente

Eu caminho com a Beleza atrás de mim

Eu caminho com a Beleza acima de mim

Eu caminho com a Beleza abaixo de mim

Eu caminho com a Beleza ao meu redor

Belas serão minhas palavras.

Mytakuie Oyassin ( Somos todos parentes – prece Lakota)

 

 

O PODER CONTRA A FORÇA

por Eduardo Almeida

    Há algo de especial na capacidade do ser humano de se renovar. Muito além da programação instintiva dos animais nós desenvolvemos uma qualidade essencial e que nos aproxima do que é realmente ser um ser humano, a possibilidade de irmos além da frustração e aprendermos com nossas dores e derrotas. Aprendemos muito com nossas vitórias, e somos hábeis em nos superar quando as coisas não saem como gostaríamos que saíssem. Temos sido capazes de sermos resilientes, de voltarmos ao nosso centro e nos reerguermos. Essa habilidade surge porque transformamos força em poder, transcendemos a dor e redescobrimos a vida. Em verdade, esse é o verdadeiro e único poder, o poder de auto-transformar-se. A verdadeira síntese e unificação do que somos só ocorre quando conciliamos em nós a dicotomia frustração versus realização. Todo nosso modelo atual de vida repousa em fazer, realizar, construir e vencer, e parte dos nossos tiranos internos não nos perdoa quando perdemos. Quando sofremos um golpe violento e somos endurecidos, caímos tal qual um galho seco na mata. Quando somos maleáveis e sensíveis captamos toda a gama de informação que a natureza nos traz, refazemos nosso caminho, refazemos nossos sonhos.

    Durante quase 30 anos Nelson Mandela esteve encarcerado enquanto o regime do apartheid esteve em vigor na África do Sul. Muito do que o sustentou durante esses anos veio de um poder muito além de qualquer força. Em 2009 o filme Invictus retratou a relação de Mandela com o capitão do time de Rúgbi da África do Sul. Nos anos em que esteve preso em Robben Island, para se manter são, Mandela recitava o poema Invictus, escrito em 1875, por William Ernest Henley. Para incentivar a seleção sul-africana, Mandela convocou o capitão do time, François Pienaar, ao palácio presidencial, em Pretória, onde lhe entregou uma cópia do poema. Sou um declarado torcedor da capacidade de superação do ser humano, e tenho visto que as grandes vitórias são obtidas mais pela sensibilidade do que pelo endurecimento. Não precisamos de generais ou capitães agressivos e endurecidos para mover nossos exércitos. Uma mostra do que é o verdadeiro poder e sensibilidade no poema de Henley:

De dentro da noite que me cobre,

Negra como a cova, de ponta a ponta,

Eu agradeço a quaisquer deuses que sejam,

Pela minha alma inconquistável.

Na cruel garra da situação,

Não estremeci, nem gritei em voz alta.

Sob a pancada do acaso,

Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.

Além deste lugar de ira e lágrimas

Avulta-se apenas o Horror das sombras.

E apesar da ameaça dos anos,

Encontra-me, e me encontrará destemido.

Não importa quão estreito o portal,

Quão carregada de punições a lista,

Sou o mestre do meu destino:

Sou o capitão da minha alma.

 

Compromisso e Cuidado

por Eduardo Almeida

        Enquanto os homens mergulhavam nas profundezas, a esperança brilhava na superfície. Tudo terminou bem para os 33 mineiros que, muito abaixo da terra, trabalharam em equipe, mantiveram-se vivos nas sombras e voltaram vitoriosos. Uma verdadeira jornada do herói. Tudo deu certo: os prazos foram vencidos, os equipamentos funcionaram a contento. O mundo teve um vislumbre de boas notícias, uma após a outra, subida após subida. Mais de um bilhão de pessoas foram agraciadas pela vitória da esperança. A maior tarefa desses mineiros vai ser conciliar a saída do anonimato com a "iluminação" do reconhecimento. A invisibilidade social de quem trabalha nas minas só é abalada quando algo sai errado. Felizmente, os 33 foram salvos.

        Nesse momento, onde o planeta clama por consciência, será que somos mineiros capazes de assegurar nossa sobrevivência? Até então, não sabemos se há alguém na superfície para nos salvar. Em 1887 o Cacique Seattle, em seu famoso discurso, pronunciava: "De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará."

        O evento da Mina San José, que ocorre justamente no Ano Internacional da Biodiversidade, pode servir para meditarmos sobre como estamos lidando com o planeta como um todo. Aprisionados nesse pequeno planeta azul, que navega solitário pela via láctea, 6.5 bilhões de habitantes podem transformar nossa casa numa grande mina soterrada. Dois grandes ingredientes trouxeram a vitória aos mineiros: o compromisso com a vida e o cuidado. Nada se conquista sem comprometimento, nada se sustenta sem o cuidado. Quando falo em cuidado lembro de Leonardo Boff em seu magistral Saber Cuidar (Vozes, 1999): "é o cuidado que enlaça todas as coisas; é o cuidado que traz o céu para dentro da terra e coloca a terra para dentro do céu..."

        Esse casamento entre cuidado e compromisso é o que pode nos levar a transformar a Terra num grande acampamento chamado Esperança.

ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E

— ó delicioso vôo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança...

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mário Quintana (Nova Antologia Poética. São Paulo: Editora Globo, 1998)

 

TRANSFORMAÇÃO E COMPROMETIMENTO
 

por Eduardo Almeida

O sintoma mais doloroso das mudanças climáticas que assolam o planeta é vermos nossos irmãos desabrigados, vivendo a perda e a morte. Somos frágeis diante de tamanha mudança. As chuvas que caíram na região serrana do Rio de Janeiro mataram mais que o terremoto que ocorreu no Chile, em 2010. Nossa tarefa primordial nesse momento histórico é nos perguntarmos se estamos prontos para as mudanças que o
clima nos impõe. A questão já não é se somos ou não responsáveis pelo aquecimento global e sim se somos capazes de nos sustentarmos e sobrevivermos com as alterações climáticas que já ocorreram.

No século XVII, John Donne escreveu: “Nenhum homem é uma ilha fechada sobre si; Cada homem é uma parcela do continente, uma parte do todo. Se um torrão de terra for arrastado pelo mar, a Europa fica menor, assim como se fosse uma propriedade dos teus amigos ou mesmo tua. A morte de qualquer homem me diminui porque eu sou parte da humanidade e, portanto, nunca pergunte por quem os sinos dobram; dobram por ti”.

Somos capazes de reconhecer que somos partes de um todo? Que cada pedaço que se vai é um pedaço nosso? Nessas horas atribuladas, onde somos sacudidos e nos damos conta de nossa vulnerabilidade, surgem os heróis anônimos, que investidos de um poder sobre-humano, cavam o chão com suas próprias mãos para resgatar os soterrados, partilham a sua casa, seu alimento e a sua fé. Nesses momentos, nos tornamos verdadeiramente humanos.

Até que sejamos todos capazes de alcançar essa real condição de Ser, que partilha e age, busquemos a transformação em nós:

Deus pai-mãe,
Que estais no Centro Espiritual do Universo a que chamamos de CÉU e que habita
dentro de nós.
Ajudai-nos a manter nossa palavra impecável como o teu nome.
Fazei com que reconheçamos que o teu reino e o nosso são um só.
Que estejamos atentos para que nossa vontade esteja de acordo com o melhor para nossa
Terra, a que chamamos de mãe.
Que saibamos dividir o pão que nos nutre a cada dia.
Fazei com que aprendamos a não ser escravos do nosso próprio julgamento, buscando a
causa mais em nós, do que no próximo.
Que nos lembremos de estar conscientes, cada vez que cairmos em tentação.
E livrai-nos de não sermos capazes de reconhecer o mal em nós. Amém

 

 

 

O Xamanismo e o Fenômeno da Perda da Alma

Um dos principais fenômenos apresentados pelos estudiosos do xamanismo é o fenômeno da perda da alma. Segundo Ingerman (1995), praticante do xamanismo, de acordo com a perspectiva xamânica, uma das maiores causas de doença é a alma perdida. Para ela, a perda da alma pode ser causada por qualquer coisa que a pessoa experimente como traumático, mesmo que outra pessoa não a experimente deste modo.

Jeanne Achterberg escreveu:

A perda da alma é considerada como o mais grave diagnóstico na nomenclatura xamânica, sendo vista como a causa de doença ou morte. Contudo, isto não é de modo algum mencionado nos modernos livros médicos ocidentais. Não obstante, vem se tornando cada vez mais claro o que o xamã considera como perda da alma – isto é, dano ao âmago inviolado que é a essência do ser da pessoa – não se manifesta em desesperança, dano imunológico, câncer e uma legião de outros distúrbios graves. Parece seguir-se ao fim do relacionamento entre entes queridos, carreiras, ou outras ligações significativas. (apud INGERMAN, 1994: 36)

Marrie Louise Von Franz, uma das mais proeminentes terapeutas Junguiana, escreveu:

A perda da alma pode ser observada hoje como um fenômeno psicológico na vida cotidiana dos seres humanos que nos cercam. A perda da alma aparece na forma de um súbito início de apatia e desânimo, a alegria sumiu da vida, a iniciativa está mutilada, a pessoa se sente vazia, tudo parece sem sentido. (apud INGERMAN, 1994, :36)

Jung (1987) afirma que a consciência é um fenômeno muito recente na natureza e, portanto, ainda muito frágil:

A consciência é uma aquisição muito recente da natureza e ainda está num estágio “experirmental” É frágil, sujeita a ameaças de perigos específicos e facilmente danificável. Como já observaram os antropólogos, um dos acidentes mais comuns entre os povos primitivos é o que eles chamam de “perda da alma” – que significa, como bem indica o nome, uma ruptura (ou, mais tecnicamente, uma dissociação) da consciência. (JUNG, 1987: 24)

Ingerman (1994) descreve exemplos do que pode ser caracterizado como perda da alma:

a) Com a morte de entes queridos, o sobrevivente também se “extingue” por um momento. “Sentimos como se a luz tivesse saído da nossa existência, como se fôssemos sonâmbulos.”

b) Pessoas que sofreram acidentes automobilísticos descrevem sensações de ter “estado no outro mundo.”

c) Pessoas envolvidas em relacionamentos abusivos podem descobrir-se trancadas em padrões destrutivos, mas sentem-se fracas demais e incapazes de saírem dele.

Segundo Ingerman (1994) outro grande símbolo da perda da alma é um vazio na memória. Ela descreve:

Freqüentemente trabalhamos com homens e mulheres que não têm lembranças de suas vidas dos sete aos nove anos ou dos doze aos catorze. Ou a pessoa pode relembrar que ouve um trauma, mas não consegue se lembrar dos detalhes circundantes. Uma vez trabalhei com um homem que havia quebrado o braço e não tinha lembrança de ter sentido qualquer dor à época do acidente. Quebrar um braço é doloroso. Bastante! De um ponto de vista xamânico, a parte do meu cliente que não podia suportar a dor simplesmente o deixou. Trabalhei com uma mulher que sabia ser sobrevivente de um incesto, mas estava confusa sobre a experiência e não recordava detalhes, incluindo o próprio ato. Passou anos fazendo psicoterapia, tentando recapturar as lembranças, mas a parte de si mesma que retinha as lembranças se fora, portanto a informação não estava disponível para ela. (INGERMAN, 1994: 27)

Nas palavras do Dr. Peter Levine:

Embora estejamos há culturas de distâncias desses povos primitivos, os modernos sobreviventes de trauma freqüentemente usam uma linguagem similar para descrever suas experiências. “Meu pai roubou a minha alma quando fez sexo comigo” é uma descrição típica da perda devastadora experienciada pelo individuo que foi sexualmente abusado quando criança.(LEVINE,1999: 61)

A função da medicina xamânica é fazer com que a alma reassuma o seu lugar no corpo do paciente. De acordo com Eliade (1998) só o xamã pode trazer a alma do paciente de volta pois é só ele que percebe a fuga da alma e é capaz de ir ter com ela em êxtase e devolve-la ao corpo.

A Psicologia contemporânea reconhece que partes do ser podem se tornar separadas, deixando o indivíduo alienado do seu self essencial. Segundo Ingerman, muitas terapias atuais compreendem que se o trauma é severo demais, partes do self sensível e vital irão separar-se pra amenizar o impacto do trauma. Ela escreve:

Em “Healing the shame that binds you (Curando a vergonha que amarra você), Jonh Bradshaw explica que a vítima de incesto “deixa o corpo porque a dor e a humilhação são insuportáveis”. Para Bradshaw, no que concerne a outros abastecedores da psicologia, os indivíduos se dissociam como que um mecanismo de defesa quando “o trauma é tão grande e o medo tão aterrorizante que alguém necessite de alívio imediato” (apud INGERMAN, 1994: 33).

Para a Psicologia, as partes dissociadas da personalidade estão perdidas numa região chamada inconsciente. Para o xamanismo, a questão de para onde vão as partes separadas é essencial para a cura. Nas palavras de Ingerman:

Na visão xamânica do mundo, as partes vitais do self não vão para uma terra de ninguém indiferenciada quando deixam o self. Em vez disso, as partes da alma vivem uma existência paralela nos mundos não habituais. Partes da alma podem ser apanhadas num temível lugar na realidade não-habitual, ou podem ter encontrado mundos mais agradáveis, onde querem permanecer. Em qualquer caso, uma parte importante da cura é resgatar as partes da alma perdida destes mundos não-habituais, trazendo-os de volta ao corpo do paciente. Para o xamã o conhecimento da topografia da realidade não habitual é crucial para a cura.(INGERMAN, 1994: 34)

Entre os povos antigos que, segundo Jung (1987) têm um nível de desenvolvimento da consciência diferente do povo ocidental, a alma não é compreendida como uma unidade. Sobre esse aspecto, em suas investigações, Jung percebeu que alguns povos primitivos acreditam que o homem tem várias almas, significando que o psiquismo do indivíduo está longe de ser seguramente unificado, correndo o risco de muito facilmente fragmentar-se sob o assalto de emoções incontidas.

Como vemos, o fenômeno da perda da alma representa, para os povos antigos, o que para a ciência psicológica os psicólogos tradicionais chamam de “dissociação”. Nesse aspecto, o xamã atuaria como aquele capaz de recuperar a alma que foi perdida. O xamã, assim como o psicólogo, é o responsável pelo tratamento da alma (psique) do seu cliente.

 

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Xamanismo - Origens e Definições (ROGER N. WALSH)

O xamanismo pode ser definido como uma família de tradições cujos praticantes concentram-se em entrar voluntariamente em estados alterados de consciência, nos quais vivenciam a si ao seu espírito viajando para outras dimensões, sob o comando de sua vontade, interagindo com outras entidades e afim se servir a sua comunidade.

Essa definição parece abranger as principais características do xamanismo. A referência à “família de tradições” reconhece o fato de que existem variações entre os praticantes do xamanismo. Ao mesmo tempo, a definição é bastante precisa para distinguir com clareza o xamanismo de outras tradições e práticas, assim como de várias psicopatologias com as quais tem sido confundido. Os sacerdotes, por exemplo, podem conduzir rituais e os curandeiros podem curar, mas é raro entrarem em estados alterados; os médiuns podem entrar em estados alterados, mas em geral não viajam pelas outras dimensões; os budistas tibetanos podem eventualmente viajar, porém esse não é o foco principal de sua prática; os que sofrem de enfermidade mental podem entrar em estados alterados e encontrar “espíritos”, contudo como vítimas involuntárias e não como criadores deliberados desse estado.

O xamanismo é uma das tradições mais antigas da humanidade. Os arqueólogos encontraram indícios de sua presença há dezenas de milhares de anos e não há meios de se precisar com absoluta certeza quão remotas são de fato suas origens. Na verdade, Eliade afirma que “nada justifica a suposição de que, durante as centenas de milhares de anos que precederam a os primórdios da Idade da Pedra, a humanidade não tivesse uma vida religiosa tão intensa quanto suas várias formas sucessivas”.

 

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Para conhecermos um pouco mais dessa tradição apresento abaixo uma síntese das quatro principais direções trabalhadas dentro da tradição xamânica americana.

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